Atualmente muito se fala sobre o papel da educação na formação integral dos estudantes – isto é, uma educação que muito mais que ensinar conteúdos, também auxilia no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, como empatia, autocontrole, pensamento crítico, colaboração e tantas outras competências essenciais para a vida em sociedade.
E você já parou para pensar se aprender mais de um idioma pode ajudar as crianças a se tornarem mais empáticas? Afinal, o bilinguismo não se resume apenas a falar duas línguas, não é mesmo?! Ele também envolve diferentes formas de pensar, sentir e enxergar o mundo.
Será que a vivência bilíngue realmente faz com que crianças sejam mais sensíveis às emoções e perspectivas dos outros? A ciência tem investigado essa questão – e as respostas são tão interessantes quanto surpreendentes!
Vamos descobrir juntos?
O que é empatia e por que ela é tão importante?
Segundo definição do Dicionário Oxford Languages, empatia é a “capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.”
Em outras palavras, empatia é conseguir se colocar no lugar do outro, compreender seus sentimentos, pensamentos e necessidades, mesmo quando são diferentes dos nossos. É claro que essa é uma habilidade fundamental para todo e qualquer ser humano, independentemente da idade. No entanto, na infância ela exerce um papel ainda mais importante. Isso porque é nesse período que as crianças aprendem, por meio da empatia, a conviver com respeito, a reconhecer e acolher as emoções dos outros, a compreender melhor seus sentimentos e a lidar com suas próprias frustrações de maneira mais equilibrada.
Quanto mais cedo as crianças desenvolvem a empatia, mais sensíveis, colaborativas e preparadas elas se tornam para construir relações saudáveis ao longo da vida. Afinal, é a partir dessa capacidade de enxergar o outro com sensibilidade que elas fortalecem outras competências igualmente importantes – como a cooperação, a resolução de conflitos e a formação de vínculos afetivos saudáveis, por exemplo.
Muito mais que uma competência socioemocional, a empatia é a base da cidadania e da construção de uma sociedade mais solidária, humana, diversa e aberta ao diálogo entre diferentes culturas, tradições e modos de viver e pensar – e é exatamente aqui que o bilinguismo entra em cena.
Bilinguismo e empatia: o que a ciência diz sobre?
Há uma série de estudos que mostram os benefícios do bilinguismo para crianças e adolescentes – desde pesquisas sobre como falar um segundo idioma pode trazer vantagens cognitivas como uma melhor capacidade de realizar multitarefas e uma maior flexibilidade de pensamento e até mesmo uma possível proteção contra o envelhecimento do cérebro e doenças neurodegenerativas como o Alzheimer, por exemplo.
Neste cenário, estudiosos também têm buscado responder outra questão importante: será que falar mais de um idioma pode contribuir para o desenvolvimento da empatia? Para responder essa pergunta, que tal ficar por dentro de algumas pesquisas sobre o tema?
Uma questão de ângulos!
Um estudo publicado na revista Child Development, em 2013, investigou se havia grandes diferenças na forma como crianças bilíngues e monolíngues de 8 anos percebiam o espaço e o ponto de vista de outra pessoa – não entendeu o que essa pesquisa tem a ver com bilinguismo e empatia, não é mesmo?! Tudo bem! À primeira vista, pode parecer que os assuntos realmente não têm relação direta, mas, calma, a gente explica!
Durante o estudo, as crianças participaram de um teste computadorizado no qual precisavam imaginar como um observador via um conjunto de quatro blocos a partir de diferentes ângulos (90°, 180° e 270° em relação à sua própria posição). Elas deveriam escolher, entre quatro opções, qual representava corretamente o que o observador via. Basicamente, o desafio era se colocar no lugar do outro para perceber o mundo sob uma nova perspectiva (literalmente visual!) – o que, de certa forma, é justamente um dos princípios da empatia, certo?
De modo geral, todas as crianças tiveram desempenho semelhante, mas as bilíngues se destacaram, sendo mais precisas ao estimar a perspectiva do outro em todas as posições. Em outras palavras, conseguiram “sair de si” com mais facilidade para compreender o ponto de vista alheio.
O estudo mostrou que essa habilidade está ligada ao que os cientistas chamam de flexibilidade cognitiva e mentalização espacial – capacidades fundamentais para desenvolver a empatia perspectivista, ou seja, a aptidão de entender o que o outro vê, sente ou pensa.
O que passa na cabeça de outra pessoa?
Outro estudo, realizado em 2016 com 240 crianças monolíngues e bilíngues húngaro-sérvias, buscou identificar uma possível relação entre o bilinguismo, a Teoria da Mente e a empatia. Apenas para contextualizar: a Teoria da Mente é a habilidade que nos permite deduzir, isto é, criar uma hipótese sobre o que o outro sente e pensa, ou seja, sobre o que se passa na mente das outras pessoas.
Os resultados revelaram que as crianças bilíngues apresentavam maior sensibilidade emocional, melhores capacidades de Teoria da Mente e habilidades empáticas em comparação com crianças monolíngues.
Os pesquisadores sugerem que esse resultado pode estar relacionado à necessidade constante das crianças bilíngues transitarem entre dois sistemas linguísticos e culturais, interpretando contextos, ajustando a forma como se expressam e percebendo sutilezas comunicativas com maior precisão. Isso, por sua vez, estimula tanto a flexibilidade cognitiva quanto a capacidade de compreender o ponto de vista do outro.
Por outro lado…
Apesar de alguns estudos apontarem uma relação entre bilinguismo e empatia, outras pesquisas mostram que não foram observadas diferenças significativas entre crianças bilíngues e monolíngues.
Um bom exemplo é o estudo com crianças bilíngues em idade pré-escolar, que não encontrou diferenças relevantes na compreensão das emoções em comparação com crianças que falavam apenas um idioma. Para os pesquisadores, os resultados sugerem que o bilinguismo, por si só, não garante uma maior empatia, mas o que realmente faz a diferença é como e em que contexto as línguas são aprendidas e vivenciadas.
Outro estudo, que buscou entender se a experiência linguística e o bilinguismo influenciam a empatia e a inteligência emocional, também chegou a uma conclusão semelhante. Os resultados indicaram que o simples fato de ser bilíngue não garante maiores níveis dessas habilidades. No entanto, a pesquisa revelou um dado interessante: tanto a empatia quanto a inteligência emocional tendem a ser maiores quando o idioma utilizado é o nativo.
Bilinguismo é… vivenciar duas culturas!
Ser bilíngue é muito mais do que aprender vocabulário ou saber utilizar regras gramaticais em dois idiomas. Ser bilíngue é conviver com diferentes culturas, hábitos e formas de se expressar.
E é exatamente essa exposição a múltiplos pontos de vista que amplia o olhar da criança sobre o mundo – e, consequentemente, favorece o desenvolvimento da empatia, da capacidade de compreender e respeitar realidades e tradições diferentes da sua.
Como estimular a empatia em crianças bilíngues
A verdade é que família e escola desempenham um papel primordial para que o aprendizado bilíngue vá além do domínio de uma nova língua e se torne também uma experiência de empatia, respeito e valorização das diferenças. E para ajudar você, mãe, pai ou responsável, a incentivar essa habilidade no dia a dia, reunimos algumas dicas simples e eficazes. Confira:
#1. Convide as crianças para trocar uma ideia ou brincar de dramatizar em diferentes idiomas! Além de permitir que os pequenos expressem sentimentos, emoções e pontos de vista variados, essas atividades também estimulam o vocabulário e a capacidade de se colocar no lugar do outro.
#2. Leia histórias que apresentem culturas, realidades e personagens diferentes. Depois, convide as crianças a refletirem sobre como cada personagem se sente, pensa e reage às situações. Esse exercício é ótimo para ajudar os pequenos a compreenderem diferentes perspectivas.
#3. Valorize e celebre as diferenças linguísticas e culturais tanto em casa quanto na escola. Mostre aos filhos que cada idioma carrega uma forma única de enxergar e vivenciar o mundo – e que essa diversidade é algo a ser respeitado e comemorado!
#4. Por fim, mas não menos importante: seja um exemplo de empatia. Demonstrar escuta ativa, gentileza e respeito nas pequenas interações cotidianas é uma das melhores formas das crianças aprenderem, não é mesmo?!
A que conclusão chegamos?
Estudos indicam que crianças bilíngues possuem, sim, um potencial para desenvolver empatia. Isso porque estão constantemente expostas ao desafio de compreender e se adaptar a diferentes formas de pensar, sentir e se comunicar.
No entanto, o bilinguismo por si só não é uma garantia de que a criança vai ser mais empática – na verdade, ele funciona como uma porta que se abre para o mundo (da empatia). E para que essa porta seja, de fato, atravessada, é preciso incentivo, afeto e experiências significativas e contextualizadas que estimulem a compreensão do outro.
Afinal, falar mais de uma língua é também entender mais de uma maneira de ser, enxergar e sentir. E talvez, no fim das contas, seja justamente aí que mora a empatia.


